NOSSA MISSÃO

Divulga artigos de pesquisas científicas escritos por cientistas e pesquisadores SUD.s e não SUD.s, profissionais e amadores, a respeito da arqueologia, antropologia, geografia, sociologia, cronologia, história, linguística, genética e outras ciências relacionadas à cultura de “O Livro de Mórmon - Outro Testamento de Jesus Cristo”, uma das quatro obras padrão de “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”.

O Livro de Mórmon conta a história dos descendentes do povo de Leí, (profeta da casa de Manassés), que saiu de Jerusalém no ano 600 a.C. (pouco antes do Cativeiro Babilônico) e viajou durante 8 anos pelo deserto da Arábia às margens do Mar Vermelho, até chegar na América (após 2 anos de navegação), desembarcando provavelmente em algum lugar da Mesoamérica (região que inclui o sul do México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras, Nicarágua e parte de Costa Rica), mais precisamente a região vizinha à cidade de Izapa, no sul do México, onde, presumem os estudiosos, tenha sido o local de assentamento da primeira povoação desses colonizadores hebreus .

Este blog não é patrocinado nem está ligado oficialmente a qualquer denominação religiosa. Todo conteúdo apresentado aqui representa a opinião e é de total e exclusiva responsabilidade de seus autores, que sempre estão devidamente identificados.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

LINGUÍSTICA - O Texto Original de "O Livro de Mórmon" - Parte 1

Principais Conclusões do Projeto de Texto Crítico - PTC
Traduzido e publicado com autorização pessoal do autor a Elson Carlos Ferreira - Curitiba/2011 elsonferreira@gmail.com - de.jerusalem.as.americas@gmail.com

royal_skousen@byu.edu


[1] Uma versão anterior desse artigo foi apresentada em 5 de Agosto de 2010 na conferência patrocinada pela FAIR, Foundation for Apologetic Information and Research. Os direitos autorais do texto desse documento é de Royal Skousen. As fotografias também são protegidas por "copyright". As fotos do manuscrito original foram cedidas por cortesia de David Hawkinson e Robert Espinosa, e são aqui reproduzidas com permissão da "Wilford Wood Foundation". Fotografias do Manuscrito Original foram tiradas por Nevin Skousen e foram reproduzidas aqui por cortesia da Community of Christ". P texto da edição de Yale de The Book of Mormon: The Earliest Text (2009) tem "copyright" de Royal Skousen; Yale University Press que detém os direitos para reproduzir este texto.

Biografia

Royal Skousen é editor do The Book of Mormon Critical Text Projeect e professor de linguística e língua inglesa na Brigham Young University. Nessa função ele discute o trabalho do “Projeto de Texto Crítico de O Livro de Mórmon” (PTC) e procura restaurar e publicar o texto original do Livro de Mórmon, e desde 1988 ele publicou mais de dez livros como parte desse projeto[1].
Em 1972 o Professor Skousen recebeu seu Ph.D. em linguística pela Universidade de Illinois Champaign-Urbana. Ele ensinou linguística nas Universidades de Illinois;  Texas, Austin; California, San Diego e na Universudade de Tampere, Finland, ele foi um erudito Fulbright. Em 2001 ele foi um pesquisador de psicolinguística do Max Planck Institut em Nijmegen, nos Paízes Baixos.
O trabalho do Professor Skousen em linguística trata principalmente do desenvolvimento de uma teoria de linguagem chamada Modelagem Analógica, a qual prediz o comportamento da linguagem através de exemplos e não através de regras. Ele publicou diversos livros a respeito desse assunto:


1- Analogical Modeling of Language, (Modelagem Analógica de Linguagem,1989)
2- Analogy and Structure (Estrutura e Analogia,1992)
3- Analogical Modeling: An Exemplar-Based Approach to Language, (Modelagem Analógica: Uma Abordagem da Linguagem Baseada no Exemplo, 2002).

Mais recentemente ele publicou um trabalho de Modelagem Analógica na computação quântica, especialmente em seu documento de Quantum Analogical Modeling, de 2005  (www.arXiv.org).
O Professor Royal Skousen começou a trabalhar no texto crítico do Livro de Mórmon em 1988. Em 2001 ele publicou os primeiros volumes do seu Critical Text Project - CTP (Projeto de Texto Crítico-PTC) ou seja, facsímiles tipográficos do Manuscrito Original e do Manuscrito do Impressor de O Livro de Mórmon. Até 2009 ele já havia publicado os seis livros que compõem o Volume 4 do texto crítico, sob o título Analysis of Textual Variants of the Book of Mormon (Análise das Variantes Textuais de O Livro de Mórmon). Este trabalho representa a principal incumbência do PTC que é, na medida do possível, restaurar por meios acadêmicos o texto original de O Livro de Mórmon.

Em 2009 o Professor Skousen publicou pela Yale University Press, a culminação de seu TCP de O Livro de Mórmon, intitulado The Book of Mormon: The Earliest Text (O Livro de Mórmon: O Texto Mais Antigo).  A edição de Yale representa o texto original reconstruído num formato de texto claro, sem intervenções explanatórias. Diferente das edições modernas de O Livro de Mórmon que têm sumários de capítulos, referências escriturísticas cruzadas, datas e notas de rodapé. Esta edição consiste somente das palavras ditadas por Joseph Smith em 1828-29, tanto quanto elas podem ser estabelecidas através de métodos padrão de crítica textual. As últimas emendas dos escribas, editores e até mesmo do próprio Joseph Smith foram omitidas, exceto aquelas que aparecem para restaurar a interpretação do texto original.

Há duas metas principais no PTC:

1- Restaurar através de meios acadêmicos, tanto quanto possível, o texto inglês original de O Livro de Mórmon. A linguagem original do texto é, eu acredito, o que Joseph Smith leu aos escribas através de meios físicos, seja pelos intérpretes nefitas (mais tarde chamados de Urim and Tumim) ou pedras videntes.

2- Determinar a história do texto do Livro de Mórmon, em particular o tipo de mudanças que têm sido feitas, tanto acidentais quanto editoriais. A maioria das alterações editoriais têm sido de natureza gramatical.

A maior parte do trabalho de recuperação do texto original envolve dois manuscritos. O mais importante deles é o Manuscrito Original (O), aquele que  Joseph Smith ditou para os escribas. O segundo manuscrito é chamado de Manuscrito do Impressor (P), o qual é uma cópia do Manuscrito Original. Este segundo manuscrito é o que foi preparado para ser levado para Palymra, New York, ao impressor E. B. Grandin em 1829-30, para que fosse feito o trabalho tipográfico. Além desses dois manuscritos, eu considerei 20 edições impressas de O Livro de Mórmon: 15 edições SUD, uma edição particular datada de 1858 (edição de Wright), e 4 edições da Igreja Reorganizada, atualmente conhecida como Comunidade de Cristo.

Aproximadamente 28% do manuscrito original ainda existem. No cálculo dessa percentagem eu excluí as 116 páginas que foram perdidas por Martin Harris em 1828.

Em 1841 Joseph Smith colocou o Manuscrito Original na pedra angular da Casa de Nauvoo, um hotel que estava em construção na cidade de Nauvoo. O manuscrito permaneceu aí por 41 anos, até que em 1882 Lewis Bidamon, o segundo esposo de Emma Smith, depois da morte desta, retirou o manuscrito. A maior parte dele estava seriamente danificada por infiltração de água e boa parte dele havia sido consumida pelo mofo.

Bidamon deu a maioria das porções do manuscrito a alguns membros da Igreja. Como resultado, 25% daqueles 28% acabou nos arquivos da Igreja SUD, que cobre de 1 Néfi 2 a 2 Néfi 1, de Alma 22 a Alma 60, e de Alma 62 a Helamã 3, e incluem outros fragmentos menores. Há também a metade de uma folha na Universidade de Utah (de 1 Nephi 14) e o equivalente a uma página em fragmentos é de propriedade particular (de Alma 58 a Alma 60).

Tem sido de grande importância para este projeto a descoberta de 2% do texto que Wilford Wood, um colecionador de Bountiful, Utah, comprou de Charles Bidamon, o filho de Lewis Bidamon, em 1937. A maioria dos fragmentos de Wilford Wood são encontrados em três partes: de 2 Néfi 5 a Ênos 1, de Helamã 13 a 3 Néfi 4, e de Éter 3 a Éter 15.

Fragmentos de Wilford Wood

Começamos com a parte de fragmentos como foram observados em 30 de Setembro de 1991, no começo dos trabalhos de conservação desses fragmentos:
Nessa época nós não podíamos estar certos de que realmente era parte do manuscrito original ou do que poderia ser, mas acabou sendo, na sua maioria, parte do manuscrito original do Livro de Mórmon.

Depois vimos Robert Espinosa, então chefe de conservação da Biblioteca Harold B. Lee, da BYU, começar a dificílima tarefa de separar esses fragmentos
:

Este é um dos mais interessantes fragmentos encontrados nesse aglomerado. Assim é como ele se parecia quando foi removido do aglomerado, todo enrolado:

Depois que ele foi desenrolado, podíamos ver as bordas irregulares de partes das folhas que haviam sido consumidas pelo mofo.


Além disso, havia uma grande mancha de água no meio do fragmento que é o resultado da umidade que havia penetrado na pedra angular.

Depois que o fragmento foi alisado e fotografado nós podíamos ver basicamente o que ele era:


O texto nesse fragmento é a letra de Oliver Cowdery; a tinta originalmente era preta mas com o tempo foi se tornando marrom. Descobrimos que a fotografia ultravioleta em preto e branco revela o melhor texto de todos:

Este fragmento do Manuscrito Original vai de 2 Néfi 7 a 8. Quando Oliver copiou essa porção em particular do texto para o manuscrito do impressor, ele fez seis alterações, das quais cinco eram acidentais. Nessa parte do texto Cowdery estava copiando uma citação do profeta Isaías que é bastante difícil, mesmo assim, o relativamente alto número de erros numa simples página não era usual para Oliver; provavelmente ele estava ficando cansado enquanto fazia esta cópia, mas também aconteceu de ele ter feito uma alteração consciente aqui, uma mudança gramatical, quando ele trocou they dieth (eles morrem, numa linguagem formal) por they die (eles morrem) enquanto copiava o texto do manuscrito do impressor.

Uma das maiores descobertas do PTC foi que a sexta parte do manuscrito usado pelo impressor não era o mesmo manuscrito produzido para a edição de 1830, mas sim o Manuscrito Original, e podemos ver isso muito bem nas marcas de lápis nesta fotografia colorida do Manuscrito Original de Helamã 15:9-14:

As marcas de lápis foram colocadas pelos tipógrafo John Gilbert em 1830. Quase um terço do tempo Gilbert passou marcando seu manuscrito antes de fazer a composição tipográfica. No geral, as evidências são de que ele usou o Manuscrito Original de Helamã 13:17 até o final do Livro de Mórmon.
Abaixo vemos uma fotografia ultravioleta em preto e branco da mesma parte de Helamã 15, e como se poderia esperar, as marcas de lápis não aparecem tão bem na foto em preto e branco:
Esta importante descoberta sobre a transmissão textual significa que de Helamã 13:17 até o final do Livro de Mórmon, há duas cópias de primeira mão do Manuscrito Original. Ainda resta apenas uma pequena percentagem dessa parte do texto do Manuscrito Original, no entanto, para esta parte, temos duas cópias de primeira mão, o que significa basicamente que quanto a essas duas cópias - o Manuscrito do Impressor e a edição de 1830 - elas concordam entre si,  então provavelmente ambas são como se sê no Manuscrito Original; e quando elas não concordam, então uma das leituras provavelmente é a correta; mas algumas vezes é bastante difícil tentar determinar qual leitura é a correta.

Para termos uma idéia de como se parece o Manuscrito do Impressor, abaixo vemos uma foto da sua primeira página:
Observe que a porção de baixo da primeira página foi consumida; de cada lado dessa folha quase uma linha e meia do texto foi perdida. Esta página foi escrita pela mão de Oliver Cowdery.

Passamos agora para uma parte ampliada da primeira página do Manuscrito do Impressor. Para essas linhas há uma quantidade de correções:
Na  terceira linha, duas palavras, to be (ser) estão riscadas. Escrita acima do que foi riscado há uma correção gramatical que Joseph Smith fez, ou seja, a palavra is (é). Joseph fez essa mudança (de ser para é, e outras semelhantes) quando ele editou o Manuscrito do Impressor para a segunda edição do Livro de Mórmon (publicado em 1837, em Kirtland, Ohio). Na próxima linha, pode-se ver muito mal, depois da palavra knowledge  (conhecimento) a letra maiúscula “P”, que foi acrescentada pelo tipógrafo em 1830. Ela está acima da linha, escrita a lápis, e diz para o tipógrafo começar um novo parágrafo nesse ponto.
Há outras duas correções aqui que foram feitas por Oliver Cowdery quando ele escreveu originalmente o texto do Manuscrito do Impressor. Algumas vezes ele perdia algumas palavras [ditadas por Joseph Smith] ou escrevia algo errado, o que então ele corrigia, frequentemente inserindo as palavras acima da linha. Na última linha mostrada acima, Oliver escreveu originalmente a palavra that (que), então ele a riscou e escreveu a palavra the (o, a) acima do que havia sido riscado. Esses tipos de correções em trabalhos de cópia eram frequentemente feitos pelo escriba original do Manuscrito do Impressor, e também podemos encontrar correções iguais a essas no Manuscrito Original.
Abaixo vemos o que é chamado de transcrição de facsímile, para esta parte do manuscrito:
Como parte do PTC de O Livro de Mórmon, temos produzido transcritos como este com a finalidade de registrar fielmente o que realmente está nos manuscritos. Observe, por exemplo, que no caso da palavra prophets (profetas), ela foi escrita errada ortograficamente como rophits na linha seguinte ao último; e destroyed (destruído) foi  escrito como destroid na última linha.  Em cada caso, deixamos para o leitor descobrir o que se pretendia significar. Na maioria das vezes não há qualquer problema [de significado da frase e entendimento].
Em 2001 a Foundation for Ancient Research and Mormon Studies (FARMS, atualmente parte do Maxwell Institute, da BYU) publicou transcrições do facsímile do Manuscrito do Impressor. Esses dois volumes são apresentados na forma de três grandes livros azuis e reproduzem todas as porções até então conhecidas do Manuscrito Original, bem como o Manuscrito do Impressor virtualmente completo. Nesses livros pode-se ler o que está nos manuscritos reais.
Desde 2001 eu tenho continuado a trabalhar em três outros volumes:

O Volume 4 foi terminado no ano de 2009, intitulado Analysis of Textual Variants of the Book of Mormon (Análise de Variantes Textuais de O Livro de Mórmon). Há seis livros nesse volume. Eles representam meu trabalho de recuperar o texto original, indo de versículo a versículo, considerando todas as variantes (e potenciais variantes) no texto bem como verificando todas as evidências textuais, com a finalidade de determinar como  poderia ter sido a interpretação original.
O Volume 3 chama-se The History of the Text of the Book of Mormon (A História do Texto de O Livro de Mórmon), no qual estou trabalhando atualmente.
O Volume 5 será uma coleção computadorizada que estará disponível juntamente com o Volume 3. Mais adiante nesse artigo, estaremos considerando como será essa coleção.
Próximo: The Yale Edition of the Book of Mormon (Edição de Yale de O Livro de Mórmon)
* * *

[1]Uma antiga versão do artigo acima foi apresentada em 5 de Agosto de 2010 numa conferência patrocinada pela FAIR-Foundation for Apologetic Information and Research. O texto desse documento é de autoria de Royal Skousen. As fotografias que aparecem nesse documento também são protegidas pelos direitos autorais (copyright). As fotos do Manuscrito Original foram fornecidas por cortesia de David Hawkinson e Robert Espinosa, e são reproduzidas aqui com a permissão da Wilford Wood Foundation. As fotos do Manuscrito do Impressor foram tiradas por Nevin Skousen e são reproduzidas aqui por cortesia da Community of Christ. O Texdo da Edição de Yale do The Book of Mormon: The Earliest Text (2009) tem direitos autorais de Royal Skousen. A Yale University Press detém os direitos de reprodução desse texto.