NOSSA MISSÃO

Divulga artigos de pesquisas científicas escritos por cientistas e pesquisadores SUD.s e não SUD.s, profissionais e amadores, a respeito da arqueologia, antropologia, geografia, sociologia, cronologia, história, linguística, genética e outras ciências relacionadas à cultura de “O Livro de Mórmon - Outro Testamento de Jesus Cristo”, uma das quatro obras padrão de “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”.

O Livro de Mórmon conta a história dos descendentes do povo de Leí, (profeta da casa de Manassés), que saiu de Jerusalém no ano 600 a.C. (pouco antes do Cativeiro Babilônico) e viajou durante 8 anos pelo deserto da Arábia às margens do Mar Vermelho, até chegar na América (após 2 anos de navegação), desembarcando provavelmente em algum lugar da Mesoamérica (região que inclui o sul do México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras, Nicarágua e parte de Costa Rica), mais precisamente a região vizinha à cidade de Izapa, no sul do México, onde, presumem os estudiosos, tenha sido o local de assentamento da primeira povoação desses colonizadores hebreus .

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

LINGUÍSTICA - Pesquisando o Egípcio Reformado

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Brant Gardner
Copyright 1998


A pesquisa sobre egípcio reformado deve começar no próprio Livro de Mórmon, que é onde o termo é usado. O que significa? O que poderia significar quando os termos foram escritos [pela primeira vez]? Estas questões requerem necessariamente que comecemos uma análise do próprio texto d’O Livro de Mórmon.

Comecemos com 1 Néfi 1:2

Sim, faço um registro na língua de meu pai, que consiste no conhecimento (ou aprendizado) dos judeus e na língua dos egípcios.”

Temos dois elementos:

1.   O aprendizado dos judeus, e
2.   A Linguagem dos egípcios.

Sorenson considera que o “aprendizado dos judeus” [tradução livre do original em inglês] significa todo o contexto cultural, e seria, inclusive, o aprendizado do próprio idioma (Sorenson, 1985, An Ancient American Setting for the Book of Mormon, p. 74). Ele então segue com uma análise da “linguagem dos egípcios”. Isto está baseado pesadamente no seguinte texto de Mórmon:

 “E agora, eis que nós escrevemos este registro de acordo com nosso conhecimento, nos caracteres que são chamados entre nós de egípcio reformado, sendo transmitidos e alterados por nós, de acordo com a nossa maneira de falar.” (Mórmon 9:32 – tradução livre do idioma inglês)

De acordo com Sorenson, isto significaria que Mórmon usou sinais do idioma egípcio para descrever o hebraico (Sorenson 1985, p. 76). Esta [idéia] pode ser reforçada pelo texto a seguir:

E se nossas placas tivessem sido suficientemente grandes, teríamos escrito em hebraico; mas o hebraico também foi alterado por nós; e se tivéssemos escrito em hebraico, eis que nenhuma imperfeição encontraríeis em nosso registro.” (Mórmon 9:33)

O problema conceitual com esta ligação é o tempo entre a chegada [do grupo de Leí] as Américas e a época em que Mórmon escreveu nas placas. Algo em torno de mil anos separam as declarações de Néfi e de Mórmon. Mórmon indica claramente que tanto os caracteres egípcios quanto os hebraicos haviam sido alterados. As alterações são suficientes para que sua “linguagem” seja desconhecida por qualquer outro povo, conforme indicado pelo versículo seguinte:

“Mas o Senhor sabe as coisas que escrevemos e também que nenhum outro povo conhece nossa língua; e porque nenhum outro povo conhece nossa língua, ele preparou, portanto, meios para a sua interpretação.”

Declaração similar é feita sobre a ininteligibilidade da linguagem jaredita em Éter 3:22-24:

22 E eis que quando vieres a mim, tu as escreverás e selarás, a fim de que ninguém as possa interpretar; porque tu as escreverás em uma linguagem que não possa ser lida.
23 E eis que eu te darei estas duas pedras e tu também as selarás juntamente com as coisas que escreveres.
24 Porque eis que eu confundi a língua em que irás escrever; portanto farei com que, no meu devido tempo, estas pedras esclareçam aos olhos dos homens as coisas que irás escrever.)

Embora não seja claro quais aspectos da “linguagem” estão envolvidos neste versículo, a mensagem é que seu idioma é único. Isto deve deixar de fora uma interpretação simplista de “linguagem”, como [se referindo ao] hebraico, já que esta linguagem ainda é conhecida. Na época em que Mórmon escreveu, [já tinha] havido uma mudança nos dois componentes da linguagem escrita:

1º - Seja o que for que o texto represente este não é em hebraico, por explícita declaração de Mórmon (9:33).

2º Também sabemos que, seja qual for a ortografia, [o texto] não foi [escrito] em “puro” idioma egípcio, mas em vez disso, Mórmon (9:32) informa que é “em caracteres que são chamados entre nós [de] egípcio reformado (tradução livre do inglês).

Em outras palavras, na época de Mórmon, o qual escreveu a grande maioria do texto [d’O Livro de Mórmon], o hebraico não é mais o hebraico [original] e o egípcio não é mais o egípcio [original]. É importante lembrar que o termo “egípcio reformado” apenas ocorre quase 1000 anos depois de Leí deixar Jerusalém. Então, procurar por egípcio reformado no Velho Mundo é inútil, nos textos que estão fora d’O Livro de Mórmon.

Ficamos com dois períodos de tempo com palavras similares, mas com possíveis significados diferentes. Certamente que durante o tempo de Leí não havia alterações significativas no [idioma hebraico]. Não é claro porque as alterações teriam ocorrido nos caracteres egípcios durante a época [em que] Néfi viveu. Assumindo que Néfi os conhecia, ele teria poucas razões para mudá-los; no entanto, os mesmos termos aparecem mil anos mais tarde, com a ressalva de que já não mais descrevem o que descreviam antes.

O que eles poderiam já ter descrito? Nas holográficas placas menores de Néfi há outra referência muito específica à escrita egípcia:

“Porque não teria sido possível a nosso pai, Leí, lembrar-se de todas estas coisas para ensiná-las a seus filhos, se não fosse pelo auxílio destas placas; pois tendo ele sido instruído no idioma dos egípcios podia, portanto, ler estas gravações e ensiná-las a seus filhos, para que assim eles pudessem ensiná-las a seus filhos...(Mosias 1:4 - entretanto, isto se refere às placas de Labão!)

Neste ponto temos a possibilidade de encontrar uma representação mista de linguagens, com o significado de uma, escrita nos caracteres de outra. De fato, este processo tem justificação histórica. William Hamblin observa um paralelo bastante impressionante de semítico e egípcio:

“O exemplo mais antigo conhecido de linguagem semítica mista com hieróglifos egípcios modificados são as inscrições Byblos Syllabics (Século XVIII a.C.), da cidade de Byblos na costa fenícia.[6] Esta escrita é descrita como um “silabário” claramente inspirado no sistema hieroglífico egípcio, e de fato é a mais importante ligação conhecida entre os hieróglifos e o alfabeto cananita”.[7] Interessantemente, a maioria dos textos em Byblos Silábico foram escritos sobre placas de cobre.

Desse modo, não seria razoável descrever os textos Byblos Silábicos como uma linguagem semítica escrita sobre placas de metal em “caracteres egípcios reformados,"[8] o que precisamente é o que O Livro de Mórmon descreve." (William J. Hamblin, Reformed Egyptian. FARMS, 1995).

Parece razoável dizer que no início d’O Livro de Mórmon, as placas de latão são uma conflação (combinação) do aprendizado dos judeus e a linguagem dos egípcios similarmente ao que é demonstrado pelas inscrições Byblos Silábicas, o que antecipa significativamente o tempo d’O Livro de Mórmon. É razoável e internamente documentado, que esta conflação de linguagem e sistema de escrita (assumindo que interpretamos o versículo para indicar esta idéia em particular) mudou ao longo do tempo e se tornou algo bastante diferente da forma quando começou. Já que Mórmon nunca disse se a “reforma” era pequena ou grande, somos deixados com a possibilidade, pelo menos, de que restava pouco do idioma egípcio mil anos depois.

Rastreando a Linguagem n’O Livro de Mórmon

A análise acima repousa pesadamente sobre a suposição de que a “linguagem dos egípcios” se refere ao seu sistema de escrita. Embora o texto de Mosias reforce essa hipótese (como a linguagem dos egípcios era lida nas placas), este não é o único lugar onde o termo “linguagem” é usado.

4 “Pois não era possível que nosso pai, Leí, pudesse ter lembrado [de] todas estas coisas para tê-las ensinado a seus filhos, exceto pela ajuda dessas placas; pois tendo sido ele ensinado na linguagem dos egípcios, portanto ele podia ler essas gravações e ensiná-las a seus filhos, ...” (Mosias 1:4 - tradução livre do inglês)

O uso do termo “linguagem” em outros textos indica que ele tinha múltiplos significados quando Joseph Smith o usou. Isto é particularmente importante por causa da fraseologia de 1 Néfi 1:2:

"Sim, faço um registro na linguagem de meu pai, a qual consiste no aprendizado dos judeus e na linguagem dos egípcios.” (tradução livre inglês)
A hipótese prevalecente é que a “linguagem de meu pai” se refere ao idioma hebraico, e que a “linguagem dos egípcios” se refere à forma escrita (apesar de que pode facilmente ser estendido à própria linguagem).

Enquanto examinamos o uso da palavra “linguagem” n’O Livro de Mórmon, a encontramos frequentemente no contexto que não permite facilmente a interpretação de uma linguagem falada ou escrita:

“Eis, aconteceu que eu, Ênos, conhecendo meu pai, que ele era um homem justo, pois ele ensinou-me em sua linguagem, e também na educação e admoestação do Senhor, e abençoado seja o nome de meu Deus por isto.” (Ênos 1:1 - tradução livre do inglês)

Embora seja certamente possível que Ênos queria dizer que ele aprendeu a mesma linguagem que seu pai falava o que é uma coisa tão banal que não haveria razão para declará-lo. Quando Ênos diz que ele foi ensinado na linguagem de seu pai, ele pode querer dizer algo mais do que apenas a sua maneira de falar. Similarmente:

“E aconteceu que ele teve três filhos, e ele chamou seus nomes [de] Mosias, e Helorum, e Helamã. E ele fez com que eles fossem ensinados em toda a linguagem de seus pais, para que por esse meio eles pudessem se tornar homens de entendimento; e para que eles pudessem saber concernente às profecias que haviam sido faladas pelas bocas de seus pais, que lhes foram transmitidas pela mão do Senhor”. (Mosias 1:2 - Ver também Mosias 9:1 e Alma 5:61 - tradução livre do inglês)

Nenhuma dessas passagens faria sentido se assumíssemos que elas devem ser tomadas com o significado literal de “linguagem”. Certamente não é incomum que uma criança aprenda a “linguagem” de seu pai. Neste caso, o termo “linguagem” parece seguir o conceito que Nefi usou quando disse que foi ensinado no “aprendizado dos judeus”.

Portanto, uma das precauções que devemos ter ao interpretar passagens d’O Livro de Mórmon a respeito da linguagem é que o texto pode ter significados para a palavra diferentes daquele que nos falaria a respeito do vocabulário ou da sintaxe. Esse possível significado de “cultura” que está anexo à palavra “linguagem” torna difícil saber como interpretar a seguinte versículo:

“E ele escolheu mestres dentre os irmãos de Amulon em cada terra que era possuída por seu povo; e assim a linguagem de Néfi começou a ser ensinada entre todo o povo dos lamanitas”. (Mosias 24:4 - tradução livre do inglês)
Não fica muito claro se era a cultura ou a própria linguagem que estava sendo ensinada. A palavra é igualmente ambígua em Ômni 1:17:

“E na época [em] que Mosias os descobriu, eles haviam se tornado excessivamente numerosos. No entanto, eles haviam tido muitas guerras e sérias contendas, e haviam caído pela espada de tempos em tempos; e sua linguagem havia se corrompido; e eles não haviam trazido registros com eles; e eles negavam a existência do seu Criador; e nem Mosias, nem o povo de Mosias podia entendê-los.”

Apesar de a frase “sua linguagem havia se corrompido” ser seguida da provável cláusula explicativa “eles não haviam trazido registros”, esses registros poderiam muito facilmente ter preservado tanto a cultura quanto a fala. Não pode ser determinado com certeza que significado deve ser aplicado aqui.

A passagem mais óbvia na discussão da palavra “linguagem” com o significado de “fala” vem da descrição da fusão dos povos de Néfi e Muleque em Zarahenla:
“Mas aconteceu que Mosias fez com que eles fossem ensinados em sua linguagem. E aconteceu que depois de eles serem ensinados na linguagem de Mosias, Zarahemla deu a genealogia de seus pais, de acordo com sua memória; e ela foi escrita, mas não nessas placas.” (Ômni 1:18)

Neste caso temos a mais alta probabilidade de que havia dois povos falando linguagens diferentes (ou pelo menos dialetos diferentes), consequentemente o ensino da linguagem seria uma tarefa preliminar importante para juntar os povos. Também é significativo que Zarahenla tenha dado sua genealogia depois de aprender a linguagem dos nefitas. Parece que a instrução na “linguagem” motivou uma melhora na habilidade de se comunicar.

A migração dos nefitas para Zarahemla é uma linha divisória no exame das possibilidades linguísticas para os povos d’O Livro de Mórmon. Cito Sorenson na questão da continuação do idioma hebraico depois desse ponto:

“Que os mais numerosos e sujeitados ‘mulequitas’ haviam todos aprendido a linguagem que Mosias trouxe entre eles uma geração antes parece altamente improvável. Julgando pela história da maioria dos contatos desse tipo, a nobreza menos numerosa teria feito a mudança, pelo menos em longo prazo... O conhecimento da fala hebraica possivelmente continuou entre os governantes nefitas por algum tempo, mas que tal conhecimento da elite perdurou até a época de Cumôra é difícil de acreditar.” (Sorenson, 1985, p. 76).