NOSSA MISSÃO

Divulga artigos de pesquisas científicas escritos por cientistas e pesquisadores SUD.s e não SUD.s, profissionais e amadores, a respeito da arqueologia, antropologia, geografia, sociologia, cronologia, história, linguística, genética e outras ciências relacionadas à cultura de “O Livro de Mórmon - Outro Testamento de Jesus Cristo”, uma das quatro obras padrão de “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”.

O Livro de Mórmon conta a história dos descendentes do povo de Leí, (profeta da casa de Manassés), que saiu de Jerusalém no ano 600 a.C. (pouco antes do Cativeiro Babilônico) e viajou durante 8 anos pelo deserto da Arábia às margens do Mar Vermelho, até chegar na América (após 2 anos de navegação), desembarcando provavelmente em algum lugar da Mesoamérica (região que inclui o sul do México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras, Nicarágua e parte de Costa Rica), mais precisamente a região vizinha à cidade de Izapa, no sul do México, onde, presumem os estudiosos, tenha sido o local de assentamento da primeira povoação desses colonizadores hebreus .

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Kaminaljuyú Stela 10 e a Cidade de Néfi

Bruce W. Warren

Tradutor Elson Carlos Ferreira, Curitiba/Brasil-Fevereiro/2004

A cidade de Guatemala é muitas vezes denominada como "a cidade da primavera eterna". Na extremidade oeste da cidade existe remanescentes do que antigamente foi um centro arqueológico na história recente dos altiplanos da Guatemala. Kaminaljuyú significa "montanhas da morte" no dialeto local Maia e não é o nome original do lugar.
Por volta da virada do século XX, havia no local de mais de dois mil montes. Hoje em dia Kaminaljuyú tem sido grandemente destruída pela expansão urbana da moderna cidade de Guatemala. Aproximadamente sessenta montes permanecem na "acrópole" e na área de "Palangana", que atualmente são preservados como parte de um parque nacional. A história arqueológica do local começou por volta do ano 1200 a.C. e terminou no fim do ano 1200 a.D. A construção do primeiro monte começou aproximadamente no ano 500 a.C. Esses montes foram divididos em cinco grupos que persistem ao longo da história Kaminaljuyú (Michels 1979:22-38).

Vários estudiosos do Livro de Mórmon propuseram Kaminaljuyú como uma boa candidata para a Cidade de Néfi do Livro de Mórmon. Os cinco agrupamentos de montes existentes neste local foram interpretados por Michels com a representação de cinco linhagens, bem como cindo "sub-chefias" (idem, pg. 38). Se for assim, estas linhagens se comparam às linhagens de Néfi, Sam, Jacó, José e Zoram (veja a revisão de Les Campbell sobre este assunto).

Em 1959, o Sr. Gustavo Espinosa descobriu um monumento de pedra fragmentado que denominou de Stela 10. Ela é um tesouro arqueológico que tem prospectos animadores para o fortalecimento da identificação de Kaminaljuyú como a cidade de Néfi. O Sr. Espinosa encontrou Stela 10 sob 14 andares de material cultural de Miraflores (Miles 1965:255, n. 10). A fase Miraflores/Verbena atualmente é datada entre os anos de 200 e 1 a.C. Apesar de este monumento ser chamado de Stela 10, provavelmente ele tenha sido um trono. Antigamente este monumento tinha três pernas ou suportes de pedra antes de terem sido quebrados. Um pouco mais tarde, em 1959, Edwin M. Shook ampliou as escavações do Sr. Espinosa e encontrou Stela 11 do mesmo modo, isto é, debaixo dos mesmos 14 andares de materiais culturais de Miraflores.

Michael D. Coe, referindo-se à descoberta de Stela 10 e Stela 11, diz:

Estes dois monumentos foram encontrados por acidente na drenagem de um dique. Um deles é uma alta pedra de granito, [Stela 11] decorada com uma figura escarranchada (do dicionário da língua portuguesa: escarranchar v.t. abrir muito as pernas) usando uma série de grotescas máscaras de deuses de Izapa (a máscara que está sobre sua face é a cabeça do pássaro-monstro chamado Vucub Caquix), levando em uma das mãos uma pederneira lascada de forma excêntrica. Em ambos os lados há queimadores de incenso feitos de barro eriçado, exatamente iguais àqueles encontrados nas escavações de Miraflores [também nas escavações em Izapa]. A outra pedra [Stela 10] é ainda mais extraordinária. Ela deve ter sido de proporções gigantescas antes de ter sido deliberadamente quebrada; os fragmentos que restaram mostram que havia vários deuses em Izapa, um deles barbado, avizinhando-se de uma figura humana, com tridentes apontando para baixo no lugar dos olhos, provavelmente um precursor do deus que mais tarde apareceu em Tikal, este também brandindo uma estranha pederneira. (Coe 1987:59)

Munro S. Edmonson, autor do livro The Book of the Year: Middle American Calendrical Systems,(O Livro do Ano: Sistemas de Calendários da América Central, 1988) encontrou três datas de diferentes calendários registradas neste monumento. Estes calendários são: O calendário local de Kaminaljuyú (data superior à esquerda), o calendário de Teotihuacãn (data do centro, abaixo), e o calendário Olmeca (grande cabeça bem no centro, na extremidade). Todos estes três calendários registram a mesma data: de 8 de Novembro de 147 a.C., do calendário Gregoriano.

Traços dos mesmos hieróglifos estão incisos no canto superior esquerdo, mas uma inscrição mais completa está no centro, na parte mais baixa do monumento. Tudo o que pode ser dito desta inscrição baixa é que ela começa com a contagem do tempo de 15 uinals, ou 300 dias, e contém um "glifo" (símbolo que identifica uma idéia ou conjunto de idéias) que significa "captura". (James A. Fox em The Ancient Maya, (Maia Antiga3ª edição, 1984:536)

Uma interpretação para este monumento (ligada ao Livro de Mórmon), envolve os eventos relacionados ao Profeta Abinadi, o rei Noé e seu filho Lími, conforme registrado em Mosias, capítulos 17 a 19. O ano é aproximadamente 148 ou 147 a.C. Tanto Abinadi quanto o rei Noé já haviam morrido pelo fogo, e o filho do rei Noé, o rei Lími, havia sido "capturado" pelos lamanitas e forçado a pagar tributo. (Mosias 19: 16, 20) A figura superior, à esquerda, está morta e com o símbolo da realeza sobre seus olhos (veja Schele e Freidel 1990:115, Figura 3:14) e é comparada com o rei Noé. A figura inferior compara-se com o rei Lími, o qual foi "capturado" pelos lamanitas, mas o t rono nefita lhe foi concedido na cidade de Leí-Néfi. A data de 8 de Novembro é significativa porque ainda hoje é a data aproximada do "Festival da Colheira" em Santiago Atitlan e representa o Ano Novo, bem como a época em que os reis ascendiam ao trono. (Allen J. Christenson, Maya Harvest Festivals and the Book of Mórmon (Festival da Colheita Maia e o Livro de Mórmon) em Review of Books on the Book of Mórmon (Revisão de Livros no Livro de Mórmon, pp. 1-3 1).

O rei Noé pode ter morrido por fogo 300 dias antes de 8 de Novembro, e seu filho se tornou rei. Entretanto sua ascensão ao trono pode não ter acontecido oficialmente até a festa do Ano Novo, que foi em 8 de Novembro de 147 a.C. Neste meio tempo os lamanitas capturaram o Rei Lími e forçaram-no a pagar-lhes tributo.

Se esta interpretação para Stela 10 de Kaminaljuyú for plausível, então esta deve ser a cidade de Néfi, já que estes eventos envolveram um profeta e dois dos reis da terra de Néfi.

Se estiver correta a hipótese de que Kaminaljuyú é uma boa candidata para a cidade de Néfi, então, como nós devemos considerar os elementos culturais de "realeza divina" e os cultos de "idolatria" que são evidentes nos registros arqueológicos de Kaminaljuyú no período Pré-clássico Recente?

Demarest e Sharer (1986:222), discutindo os fortes vínculos culturais entre Kaminaljuyú e El Salvador, declarou:

Uma futura série de hipóteses também pode ser proposta com respeito aos aspectos "superorgânicos" da cultura desta região. Pode-se especular que tanto a tradição étnica compartilhada e as redes de trocas culturais mencionada na hipótese acima ajudaram a manter uma unidade geral de pensamento ideológico e político ao longo do período Pré-clássico Recente na área cultural, no sul dos altiplanos. O compartilhamento de cultos religiosos específicos é sugerido pela distribuição dos monumentos "corpo de pote potbelly" e "Cabeça de Jaguar" na área sul, assim como as similaridades na arquitetura e no plano de disposição dos centros cerimoniais. Note a virtual identidade estilística dos monumentos esculpidos e os complexos cerimoniais comparados em locais tão distantes como Monte Alto e Santa Leticia. A "Religião Doméstica" do período Pré-clássico Recente também parece ser uniforme através da área sul, dá a identidade de estilos distintos de estatuaria (Dahlin 1978; Demarest 1981:9295) e detalhes específicos dos  complexos centros three-pronged encontrados em vários lugares. (cf. Borhegyi 1951a, 1951b, 1965a; Demarest 1981: 246-2247; Gonzales and Wetherington 1978; Sharer 1978c: 28-30).

Estes elementos culturais de "realeza divina" e "culto idólatra" têm um paralelo no reinado do rei Noé da cidade de Néfi. Em Mosias 11: 1 -15, nós encontramos frases como "… ele não seguiu os caminhos de seu pai" (versículo 1), "... não guardou os mandamentos de Deus" (versículo 2), "… e teve muitas esposas e concubinas" (versículo 2), "... assim, havia modificado os negócios do reino" (versículo 4), "... e em sua idolatria" (versículo 6), "...e também construiu para si mesmo um es espaçoso palácio com um trono no centro" (versículo 9),  "...ele construiu uma torre perto do templo; sim uma torre muito alta" (versículo 12), e "... e desta maneira eram sustentados, em sua indolência e em sua idolatria e em suas libertinagens, pelos tributos que o rei Noé impusera a seu povo" (versículo 6).

A mais provável explicação para a fonte da jornada do rei Noé para a "realeza divina" e "idolatria" vem da dominação do lamanita rei Lama e seu filho. (Mos. 9:5-19; 10:6-18) Ele provavelmente apresentou as noções tanto da "realeza divina" quanto da "idolatria" dos lamanitas na "terra da primeira herança de seus pais" e então estes conceitos se difundiram completamente na área de influência do rei Noé conforme observado na citação de Dernarest e Sharer.